O primeiro capítulo de Um Beijo está online! Para ler, só clicar em “continue lendo”…

O dia em que a vi pela primeira vez não apenas foi o dia mais constrangedor da minha vida, como também eu tinha meus quatorze anos. Eu não conhecia muito da vida, e confesso que nem mesmo uma garota eu havia beijado, mesmo eu tendo uma incrível vontade de fazer isso com cada garota bonita que eu via por aí. Não se engane ao ler essas palavras pensando que se trata de uma história sobre um cara lindo, confiantes e forte (ou príncipe encantado, como também são conhecidos) ou sobre um bad-boy vestindo uma jaqueta de couro, com um skate no pé e um cigarro na mão. Essa história é sobre mim.
Meu nome não é Johnny, infelizmente, porque esse é um nome muito mais maneiro que o meu, que por sinal, não lhe contarei por enquanto, já que um pequeno parágrafo não nos torna amigos o bastante para que você saiba meu verdadeiro e vergonhoso nome. Por enquanto, você pode me chamar pelo meu nick da internet: HanSolo9.9. Você, agora, deve ter deduzido que eu sou um naqueles nerds gordos exatamente como aquele da internet. Pois bem, não sou. E não acredite na minha melhor amiga, Mayara, quando ela disser exatamente o contrário.
Só porque tenho cerca de trezentos mangás de vários títulos diferentes e lido cada um deles pelo menos duas vezes, e por ter lido mais de cem livros, por ser magrelo, baixinho, usar óculos e nunca ter beijado uma menina faz de mim um nerd? Eu acho que não.
Bem, é assim que eu era aos meus quatorze anos. Atraente, não? Antes de prosseguir com o dia que a vi pela primeira vez, vou falar um pouco sobre Mayara. Ela é sem dúvida a garota mais bizarra que já conheci. Ela é muito pequena. Sério. Ela é da altura do meu tórax. Eu costumo sempre apoiar meu cotovelo em sua cabeça apenas para irritá-la. Mayara veio do Rio de Janeiro a São Paulo para morar do outro lado da rua. Ela tinha a pele morena queimada de sol, tinha olhos incrivelmente castanhos e cabelo encaracolado, e, apesar dos traços afro-descentes, ela tinha o nariz fino europeu, herdado de seu pai.
Ela é super-fã de livros, assim como eu, nós já lemos dezenas de livros em comum. Sempre que eu pego um livro emprestado com alguém e gosto, empresto também para ela; Mayara faz o mesmo por mim. Contudo, ela não gosta de mangás, mesmo eu tentando fazê-la ler por anos. Nós crescemos juntos e somos tão amigos que conhecíamos todos os segredos um do outro; eu sabia sua comida preferida, cor favorita, os livros que mais gostava e os melhores personagens na opinião dela. Eu conhecia suas músicas favoritas, seus amores e suas desilusões. Entretanto, ela, assim como eu, nunca havia beijado a boca de outra pessoa (ela não quer que eu conte, mas vou falar mesmo assim: ela vive dizendo que seu primeiro beijo vai ser alguém que ama, ou quem sabe, no dia de seu casamento; ela não sabe de nada).
Estávamos no recesso de meio de ano, em julho. Apesar de ter ainda mais seis meses do 9º ano ou 8ª série, como preferir, eu esperava ansiosamente pelo Ensino Médio, apesar de saber que seria um pouco frustrante, já que eu não moro nos Estados Unidos ou no Japão. Nós dois havíamos mudado de colégio; sairíamos da escola do bairro no fim da minha rua, para estudar no centro da cidade. Era uma escola particular, para qual nós dois conseguimos bolsa. Eu consegui uma bolsa integral, ou seja, estudaria de graça. Já ela, que ficou em 2º lugar na prova de avaliação, pegou uma bolsa de 70% de desconto. Por isso, toda vez que o assunto surge, eu me gabo.
Agora, chega de enrolação e vamos para a história do dia em que eu a conheci.
Meu dia começou sonolento, já que joguei videogame a noite toda. Mayara tocou campainha durante a madrugada, enquanto minha mãe servia o almoço. Ela entrou sem bater na porta do meu quarto e muito menos sem ser convidada, como de costume.
– Acorda, bocó!
Ela abriu as cortinas do quarto, fazendo com que o sol penetrasse direto em meus olhos; imediatamente me escondi sob meu edredom vermelho. Não achando o bastante, Mayara puxou com tudo o edredom, revelando meu corpo esquelético vestindo nada além do que uma cueca preta.
– Você não tem pijama, não? – Ela gritou, jogando o edredom de volta.
– Tenho, mas dormir assim é muito mais confortável. E eu adoro. – Ela deu de ombros. – E não reclame que você deu sorte da cueca não estar rasgada. – Apesar de ter dito isso, eu não tinha cuecas rasgadas; todas estavam intactas e limpinhas. Minha mãe as havia lavado ontem.
– ECA! Eu podia ter ido dormir sem essa! Principalmente sem ver!
– Não estou entendendo a frescura, Mayara, não tem nada aqui que você já não tenha visto.
Eu sei que pareço confiante falando dessa maneira, mas não sou. Sou apenas muito bom em fingir quando falo com a Mayara, afinal, nós crescemos juntos. Eu a conhecia desde os três anos de idade; nós tomávamos banho juntos. Eu até sei o clico menstrual dela, que por sinal, é uma bagunça.  Eu podia falar qualquer coisa para ela, e ela para mim.
– Isso aconteceu quando tínhamos seis anos. Não sei, nem quero saber como as coisas estão por aí agora. – Levantei-me e vesti uma roupa confortável, afinal, não tinha nada planejado para aquele dia.
– Você não vai nem tomar banho? Vai de moletom também?
– O que? – Estranhei. – Ir aonde?
– Você esqueceu, é claro.
– O que? – Gente, eu realmente tinha esquecido algo.
– Que dia é hoje? – Ela perguntou, indignada.
– Terça? – Chutei.
– Em número, garoto.
– Hummm… Dia 3? – Nas férias eu realmente perdia a noção de tempo.
– Dia 17! – Ela claramente queria me dar uns bons tapas, ou murros.
– E daí?
– Hoje é seu aniversário! – Pelo seu tom de voz, Mayara estava totalmente estarrecida com o fato de eu me esquecer do próprio aniversário.
Bem, vou confessar que eu não tinha esquecido dessa data tão importante. De fato, eu sempre lembrava, todos os anos, mas não por ser o dia de meu nascimento, mas sim por ser o dia em que meu pai morreu. Ele era soldado do exército; ele foi enviado em uma missão na Bolívia, mesmo depois de ter sido dispensado do serviço; ele nunca mais voltou para casa. Até, hoje, porém, eu não entendo por que minha mãe escolheu o dia do meu aniversário para enterrá-lo.
– Você sabe que eu odeio o dia de hoje, Mayara.
– Como se eu me importasse; já passou muito tempo, acho que você devia superar isso. Vai logo tomar banho que nossa sessão é às 3 horas.
– Sessão?
– Sim! – Ela estava irritada; nunca, jamais, deseje encontrar com Mayara Soares irritada, você pode não sair vivo; até hoje, eu não faço ideia de como sobrevivi. – De cinema! Por Deus! Anda logo, menino!
Temendo por minha vida, obedeci. Tomei um banho gelado, devido ao calor e para despertar completamente; não estava a fim de pagar para ir no cinema e dormir durante o filme.
Vestindo minha camiseta favorita de Naruto, descemos a ladeira em direção à estação de metrô. Pegamos a linha vermelha e seguimos em direção ao oeste, com o objetivo de chegarmos ao Tatuapé.
Na minha singela opinião, o Shopping Metrô Tatuapé é um dos mais cheios de São Paulo; tem sempre tanta gente que é impossível andar sem esbarrar em alguém ou permanecer cem por cento do tempo ao lado de sua companhia; em algum momento você terá que se afastar para desviar de uma pessoa ou grupo que vem na direção oposta. No nosso caso, a gente preferia ficar juntos e ver os outros se separarem e, quando isso não acontecia, ambos os grupos paravam e, constrangedoramente, desviávamos. Por alguma razão, Mayara e eu achávamos isso engraçado.
Para chegarmos ao cinema, temos que, quase literalmente, ir de uma ponta a outra do shopping e subir dois lances de escadas rolantes. Como era matinê, mal havia fila. Compramos dois ingressos para o filme O Ultimato Bourne contra a vontade de Mayara, que queria ver Ligeiramente Grávidos. Como faltava uma hora para o filme, decidimos ir à praça de alimentação e detonar um Big Mac cada. Enquanto eu mastigava uns picles, ela tagarelava sobre um livro totalmente desconhecido para maioria das pessoas: Percy Jackson e os Olimpianos, O Ladrão de Raios, de Rick Riordan, que tinha acabado de ser lançado aqui no Brasil. Pelo que ela falava do livro, ele não deveria ser lá essas coisas. Algo sobre mitologia grega. Eu estava mais concentrado no meu lanche mesmo.
Abri bem a boca para abocanhar mais um pedaço do lanche. Como de costume, a consequência foi cair molho especial em minha camiseta, bem em cima da bandana do Naruto. Eu usei minha língua para tirar a maior parte do molho; eu estava no meio desse processo nojento e reprovado por Mayara quando eu a vi.
Era a garota mais linda do mundo. Devia ter a minha idade, mas era menor do que eu. Ela tinha grandes olhos verdes, algumas sardas sobre o nariz fino e arrebitado; e longos e lisos cabelos castanhos. Ela era perfeita. Ela estava acompanhada de um casal de adultos com as mesmas características, provavelmente os pais dela. Eu apenas percebi que Mayara me chamava quando a menina sumiu na multidão.
– Será que pode parar de lamber sua camiseta? – Ela estava irritada mais uma vez; Mayara não era a pessoa mais tranquila que eu conhecia.
E sim, é isso mesmo que você está pensando. Eu via a garota da minha vida pela primeira vez enquanto lambia molho especial do Big Mac da minha camiseta nerd. Isso sim é que é um bom começo!
– Você viu aquela garota? – Perguntei imediatamente, levantando para poder olhá-la.
– Quem? – Mayara estranhou, olhando em volta.
– Ninguém. Ela já foi de qualquer forma. – Dei um sorriso falso. – Então, como vai o Júlio?
– Nem pensem falar nesse cara!
Um mês antes das férias, Mayara havia se interessado por um menino do 2º ano do Médio. Ele era bonito e engraçado, alguém pelo qual as meninas morreriam de amores. Contudo, a magia acabou quando uma colega da nossa classe, Olivia, engravidou desse mesmo menino.
– Sem dúvida, ele é experiente.
– Eu não ligo para isso, você sabe.
– Tudo que eu queria era não ir para o Ensino Médio sem beijar nenhuma garota.
Mayara, mesmo sendo carioca e ter pele morena de sol, ficou vermelha, algo que posso contar nos dedos às vezes que vi acontecendo.
– Eu sou uma garota. – Ela praticamente sussurrou e, ao mesmo tempo, falou pelo nariz. Como eu não entendi uma palavra do que ela falou, tive que reagir de acordo.
– O QUE VOCÊ DISSE? – Eu praticamente gritei.
– EU SOU UMA GAROTA! – Ela vociferou, irritada do nada; deu pra perceber que ela era um tanto pavio curto.
– Isso sabemos. Está escrito na sua certidão de nascimento.
Ela me fuzilou com os olhos e só voltou a falar depois de terminarmos de comer, dizendo apenas que tínhamos que ir para sala de cinema. Seguimos para a nossa sessão. Sem pedir minha opinião, ela sentou na última fileira, no banco mais da ponta. Sentei ao seu lado.
Por alguma loucura de minha cabeça, eu não conseguia para de olhar para entrada do cinema, torcendo para que aquela menina da praça de alimentação entrasse. Não sei por que, já que não teria coragem de falar com ela de qualquer maneira.
As luzes apagaram e os trailers começaram. Senti os olhos de Mayara me fitando e me virei para ela. Eles estavam com um pouco de raiva, mas havia algo mais neles, algo que não identifiquei. Do nada, ela me beijou, mas não na bochecha como eu estava acostumado, e sim nos lábios. Quase que instintivamente eu retribuí.
E assim foi meu primeiro beijo, senhoras e senhores. Com minha melhor amiga, mas não se enganem, eu não senti como se beijasse minha irmã. Foi bom; tão bom quanto o primeiro beijo entre duas pessoas pode ser.
Ao sairmos do cinema, Mayara foi até o banheiro sem aviso. Logo no fim desse corredor de saída, havia uma pequena livraria e revistaria chamada “Cidade de Papel”. Sou cliente de carteirinha de lugar, já que ali eu encontro a maioria dos mangás e livros difíceis de encontrar que compro; um dos vendedores, Marcelo, já me conhece e sabe todos os títulos que acompanho e em que volume estou.
Fui até a loja e, enquanto folheava o último volume de Bleach publicado, eu a vi mais uma vez. Ela estava, inacreditavelmente, dentro da loja folheando um exemplar de Scott Pilgrim. Pela primeira vez na vida eu me senti confiante o bastante – provavelmente pelos beijos trocados no cinema – para ir até a menina e dizer:
– Você sabia que o Pac-Man era para se chamar Puck-Man, mas os criadores resolveram mudar por que as pessoas poderiam facilmente trocar o “P” por um “F”, se é que me entende.
Enquanto eu falava, ela já esboçava um sorriso lindíssimo em seus lábios finos. Quando terminei, ela soltou uma gostosa e linda risada, que combinava perfeitamente com ela. Então, disse:
– Vários meninos vieram falar comigo, mas nenhum usou a cantada do Scott. Você merece minha atenção. – Ela tinha um sotaque carregado, provavelmente estrangeiro, mas pude entender suas palavras claramente, como se ouvisse com o coração. – Sou Anna. Anna Flowers.
– Você tem o mesmo…
– Sobrenome que a Ramona, eu sei. – Ela sorriu o sorriso mais lindo que eu já tinha visto. – Qual o seu?
– Andrew. – Respondi; droga! Anna me distraiu tanto, que acabei revelando meu nome. Pior que Johnny, não?
– Andrew. – Meu nome dito com seu sotaque até que soava, milagrosamente, muito bonito. – Muito prazer! – Eu não sabia o que responder. Eu nunca tinha falado com uma menina assim antes. Não imaginei que haveria a remota possibilidade dela aceitar meus cortejos, mas agora que tinha dado certo, eu não sabia mais o que falar. – Então, – ela acrescentou, percebendo meu dilema. – Aquele molho de Bic Mac na sua camiseta estava gostoso?
Gente, eu fiquei vermelho feito um pimentão. Eu só não sabia se por ter feito uma coisa totalmente nojenta ou por que ela havia reparado em mim exatamente nessa hora. Pelo menos, eu pensei, ela reparou em mim, não?
– Anna! – Um homem chamou. – Vamos! – Ele também tinha sotaque.
– Tenho que ir. – Ela parecia não querer.
– Você… hã… quer me encontrar aqui amanhã? – Perguntei, antes que pudesse pensar e, consequentemente, impedir minha voz de falar.
– Sim. – Ela respondeu após pensar um pouco. – Eu adoraria. Umas 2 horas está bom?
– Perfeito! – Respondi, entusiasmado.
Ela colocou o exemplar de Scott Pilgrim em uma das prateleiras e saiu. Ela olhou para mim uma última vez enquanto descia a escada rolante. Mayara apareceu em seguida, perguntando o que eu estava fazendo ali.
Voltamos para casa em silêncio; estávamos com vergonha um do outro e sem nos lembrarmos do que tinha acontecido no filme que pagamos para ver. Chegamos à nossa rua. Ela parou diante do portão da casa dela, pegou as chaves para entrar, mas não o fez. Ficou parada, fitando o chão enquanto brincava com os chaveiros.
– Mayara… – Eu comecei, apesar de não saber o que dizer.
– Andrew… O que aconteceu hoje… Você… Gostou? – Ela gaguejou, sem graça. Eu nunca a tinha visto sem graça falando comigo.
– Adorei cada minuto. – Respondi, pensando tanto no beijo quanto em Anna; sou uma pessoa ruim por causa disso?
Ela sorriu e não disse mais nada, apenas entrou em sua casa sem se despedir. Voltei para minha casa, onde minha família estava reunida em volta da televisão. Minha mãe, meu padrasto e os gêmeos, Lara e Ricardo assistiam a um filme que passava em um canal de TV aberta que eu, particularmente, não gosto. Fui para o computador depois de me trocar.
Quando eu disse que sou conhecido na internet HanSolo9.9, quis dizer que sou realmente conhecido num jogo de RPG online. No jogo, eu tenho um time com cerca de dez jogadores que executam as missões que eu defino. Esses jogadores são os que se tornaram meus amigos online e, sempre que algo muito extraordinário acontecia, eu contava para eles. Enquanto nós matávamos um dragão de gelo, contei sobre o que aconteceu com Mayara e Anna, e sobre meu encontro no dia seguinte. Vários deles me disseram que era exatamente por isso que me aceitaram como líder: por que eu tinha garotas interessadas em mim. Eles são muito nerds, meu Deus. Ainda bem que não sou assim.
Naquela noite, sonhei com Anna. Estava tudo bem no começo do sonho, mas então Mayara surgiu do nada e começou a chorar ao ver que eu estava com Anna. Eu não sabia o que fazer; as duas me olhavam acusadoramente; em seguida elas correram cada uma para um lado, e eu não consegui mais me mover.
Acordei assustado e sem saber o que fazer. Felizmente ainda era antes das onze, então eu não estava atrasado. Tomei banho e vesti minha melhor roupa: calças skinny, camiseta gola “V” branca e uma jaqueta de couro por cima. Até mesmo meu padrasto dizia que eu ficava estiloso usando essa roupa, e ele não elogiava nem minha mãe.
Refiz o trajeto de ontem até o Metrô, e depois ao Tatuapé. Cheguei à Cidade de Papel cerca de meia hora antes do horário combinado. Enquanto esperava, li algumas HQ’s do Superman e do Batman. Marcelo estava na loja e por isso não implicaram comigo. Quando o relógio marcou 2 horas, Anna não dava nem sinais de aparecer. Mais meia hora passou, e nada dela. Meu coração doía; eu nunca tinha marcado um encontro com uma garota e, logo no primeiro, ganhei um bolo.
– E ai, cara? – Marcelo, surgindo do nada e quase me assustando chamou. – Tudo bem? Faz uma hora que está aqui esperando.
– Não sei. Eu marquei com uma garota, mas parece que ela não vai aparecer.
– Eu sei como é. Ninguém merece receber um bolo de uma garota. – Ele realmente sabia o que estava falando; ele era tão nerd quanto eu e, sendo mais velho, deve ter ganhado muitos mais bolos que eu. Quero dizer, ele é nerd, eu não.
– Pois é. Se importa se eu ficar mais um pouquinho?
– Olha, se você não comprar nada, meu gerente vai reclamar comigo. – Marcelo parecia genuinamente chateado por dizer isso.
– Tudo bem. – Eu coloquei a mão no bolso e senti a nota de cinquenta reais em meu bolso: toda minha economia do mês da mesada. – Eu acho que vou comprar umas coisinhas.
Eu comprei cinco mangás de uma série que tinha acabado de começar a ser lançada. Eu, quando estou triste, gosto de comprar coisas que eu gosto, e que em algum momento eu decidi não comprar. Com o troco, eu comprei um milk-shake de Ovomaltine. Voltei para casa naquele dia um tanto triste, mas, ao mesmo tempo, feliz de voltar à realidade de ser uma pessoa que não atraí a atenção de garotas.
Quando cheguei em casa, Mayara estava no portão da casa dela, sentada no chão mesmo. Aproximei-me e sentei ao lado, ela parecia um pouco abatida. Perguntei o que havia de errado, ela me disse que meu padrasto havia dito que eu tinha ido encontrar com uma garota. Eu confirmei, mas também contei que ela não tinha ido. Pensei que ela diria “bem-feito” ou algo assim, mas ela apenas disse:
– Ela que saiu perdendo. – Ela estava prestes a chorar.
– Desculpa te magoar, May. – Eu não sabia mais o que dizer.
– Não se preocupe. Não temos nada. Ontem foi um erro, não deveria ter te beijado daquele jeito.
– Ah, sim, deveria sim. – Arranquei um sorriso dela. – Foi muito bom. Eu adorei! Por mim, repetiria tudo de novo.
– Então por que você saiu com outra menina hoje? Ou tentou, pelo menos.
– A verdade? Quer que eu seja muito sincero? – Perguntei, apesar de conhecer Mayara bem o bastante para saber que ela preferia a honestidade à mentira.
– Sim.
– Por que eu a achei muito bonita, e ela estava lendo uma HQ de Scott Pilgrim. Foi a primeira vez que eu tive coragem o bastante para falar com uma garota.
– Então quer dizer que você chama qualquer garota bonita para sair? – Ela estava se sentindo melhor, já que estava sendo irônica.
– Não, só as que leem Scott Pilgrim. – Ficamos em silêncio por alguns instantes. – Você acha que mereço uma segunda chance?
– Só por que a garota não te quis, você me quer agora? Sou o que sobrou?
– Não é bem assim, May.
Ela começou a rir do nada: – Estou brincando. Eu sei que você não sente nada por mim, como eu sinto por você, e tudo bem por isso.
– Você está querendo dizer que sente algo por mim? – Estranhei; ninguém, nunca, sentia nada por mim.
– Acho que sim.
– Então, acha que se déssemos uma chance pra gente, estragaria nossa amizade de anos? – Perguntei, apesar de me sentir estranho.
– Espero que não. – Ela respondeu.
Nós nos beijamos mais uma vez.

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